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O Tempo

Zú Moreira (Enviado Especial)

Piranguinho. "Minas são muitas". A frase cunhada pelo escritor Guimarães Rosa para definir a diversidade cultural mineira também expressa as vocações econômicas espalhadas pelo Estado. Terra do minério de ferro e do café, Minas Gerais também abriga várias "capitais" produtivas, como Salinas (cachaça artesanal), Nova Serrana (calçados esportivos) ou a própria capital mineira, Belo Horizonte, com os inúmeros botecos. Essa alcunha vale não só para definir a fabricação em larga escala em um único município ou região, como também destaca a importância cultural que o produto adquire.

É o caso de Piranguinho, no Sul de Minas, conhecida como a "capital do pé de moleque". No ano passado, o doce artesanal ganhou o título de Patrimônio Cultural de Minas Gerais. A fama remonta aos idos de 1936, quando dona Matilde decidiu vender o doce na extinta estação ferroviária da cidade, chefiada pelo marido, seu Modesto.

Pessoas ilustres como o vice-presidente José Alencar, Tancredo Neves e o poeta Carlos Drummond de Andrade já atestaram a qualidade do doce de Piranguinho, cuja produção mensal ultrapassa 60 mil unidades, sete vezes mais que a população de 8.220 habitantes. Um terço dessa produção é feita pela Barraca Vermelha, fundada por dona Matilde e hoje administrada pela sobrinha Sônia Regina Guedes Torino, 55.

"Somos os únicos a manter a receita tradicional, à base de amendoim e rapadura", conta a empresária, que emprega 15 pessoas, entre produção e comércio. Hoje, são mais de 11 produtores. Cada barraca tem o nome de uma cor, às margens da BR-459, que liga Pouso Alegre a Itajubá.

Cidades vivem da tradição de seus produtos
Em Bom Repouso, morango garante a renda da população o ano inteiro
 

Além do tradicional pé de moleque de Piranguinho, o Sul de Minas se destaca ainda pela produção de componentes da indústria de eletroeletrônicos. Outra vocação é o cultivo de morango, no qual domina 96% da produção da região. A capital da fruta é Bom Repouso, a 433 quilômetros de Belo Horizonte.

"Aqui, o morango garante renda para a gente o ano inteiro", conta o produtor Anilton Rodrigues da Silva, vice-presidente da central de negócios Coração do Vale, cooperativa que reúne cerca de 30 pequenos agricultores. A cidade, que antes tinha na batata sua principal fonte de renda, agora se volta para o morango.

De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em 2008 foram mais de 24,8 mil toneladas produzidas. Apenas essa central de negócios movimentou R$ 183 mil. Na roça de Anilton, são cultivados cerca de 45 mil pés da fruta. "Ontem, negociamos a caixa por R$ 7", comemora. Ele conta que a central comercializa o morango junto a uma rede paulista de supermercados que conta com 28 lojas. "Também estamos conversando com o Carrefour", avisa, sem dar detalhes da negociação.

"A central tem ganhado muito mercado. Antes, eles estavam na mão dos atravessadores", ressalta a analista de mercado do Sebrae Algeny Gomes. Agora, a renda dos produtores quase triplicou. Eduardo Henrique de Brito, 19, é responsável por uma lavoura que rende até R$ 2.000 por mês, na alta temporada. "Do jeito que está é bom, mas tenho plano de ter minha própria lavoura", planeja.

Desenvolvimento local. A gerente de indústria e projetos temáticos do Sebrae-MG, Marise Brandão, ressalta o papel dos micro e pequenos empreendedores para o desenvolvimento da economia local. Em Juruaia, capital da lingerie, metade da cidade vive em torno da produção e comercialização das roupas íntimas. "Hoje, a cidade abriga mais de cem empresas", completa Marise ao ressaltar que, enquanto o mundo estava em crise, foram criadas novas empresas na cidade.

Outro destaque no setor de vestuário é Borda da Mata, também no Sul de Minas, integrante do chamado circuito das malhas. Considerado a capital do pijama, o município atrai compradores de várias partes do país. Ao lado da tecelagem, o setor é o que mais emprega na cidade.

Apenas a Lua Cheia, uma das fabricantes, emprega cerca de 60 funcionários. "A maior parte dos empregos é para pessoas da própria cidade", conta a proprietária Clarice Coutinho de Andrade. O setor têxtil e de vestuário de Borda da Mata reúne mais de 80 micro e pequenas empresas, segundo a Classificação Nacional de Atividades Econômicas (Cnae) do IBGE.
Em Inconfidentes, no Sul de Minas, a tradição do crochê é passada de geração a geração. Considerada a capital do crochê, a cidade que integra o circuito das malhas reserva muita história em torno da atividade. "Na zona rural, antes de a criança ir para a escola, ela tinha que deixar uma parte do crochê pronta", diz uma moradora. Juliana Gomes, 25, deixou de receber encomendas do comércio e hoje pratica como hobby. "Aprendi ainda nova, aos 8 anos, com a minha mãe", conta.

União gera mais economia
 
Desenvolvida pelo Sebrae, a central de negócios vem se tornando um importante instrumento para fortalecer micro e pequenos empreendedores. No Estado, são cerca de 30 redes em funcionamento em todas as regiões. Por meio delas, o grupo de pequenas empresas negocia insumos, compra de equipamentos e o preço dos produtos.

A economia chega a 30%, o que significa margem de lucro maior. "Sozinhos, eles não têm condições de competir. No início é difícil porque um vê o outro como concorrente. Mas, com o passar do tempo, eles percebem que têm as mesmas dificuldades e desafios", afirma a analista de mercado do Sebrae, Algeny Gomes.

Um exemplo de sucesso é a "Tece Bem", em Guaranésia, no Sudoeste de Minas, conhecida como a capital dos panos de prato e de chão. Com a união, eles se tornaram mais competitivos. No primeiro ano de funcionamento, em 2008, a rede registrou faturamento de quase R$ 7 milhões a mais do que no ano anterior.

Em Bom Repouso, a Coração do Vale, que reúne cerca de 30 produtores de morango, também colhe os frutos. Atuando há dois anos, a economia na compra de insumos chega a 30%. Segundo o produtor Anilton Rodrigues da Silva, o grupo se livrou de atravessadores e dita o preço pago ao produtor. Foi desenvolvida ainda uma infraestrutura com frigorífico, transporte próprio e centro de distribuição.

Em Borda da Mata, a alta competitividade no setor de pijamas ainda não foi capaz de unir as empresas para ganhar mais mercado. (ZM)

Feiras são boa chance de conhecer
 
Uma boa oportunidade de conhecer de perto os produtos fabricados no Sul de Minas está nas feiras organizadas pelas cidades. Em Inconfidentes, será de 2 a 6 de junho, a 9ª Crochemalhas. Em Jacutinga, de 22 de maio a 6 de junho, a prefeitura realiza, em parceria com lideranças empresariais, a 33ª Fest Malhas, com muitas novidades.

Em Piranguinho, os produtores fazem em julho a Festa do Pé de Moleque, evento que mobiliza todas as cidades do Sul de Minas. O destaque é a distribuição gratuita de 15 metros do doce. (ZM)