| 24 Maio 2010
O Tempo
Zú Moreira (Enviado Especial)
Piranguinho. "Minas são muitas". A frase cunhada pelo escritor Guimarães Rosa para definir a diversidade cultural mineira também expressa as vocações econômicas espalhadas pelo Estado. Terra do minério de ferro e do café, Minas Gerais também abriga várias "capitais" produtivas, como Salinas (cachaça artesanal), Nova Serrana (calçados esportivos) ou a própria capital mineira, Belo Horizonte, com os inúmeros botecos. Essa alcunha vale não só para definir a fabricação em larga escala em um único município ou região, como também destaca a importância cultural que o produto adquire.
É o caso de Piranguinho, no Sul de Minas, conhecida como a "capital do pé de moleque". No ano passado, o doce artesanal ganhou o título de Patrimônio Cultural de Minas Gerais. A fama remonta aos idos de 1936, quando dona Matilde decidiu vender o doce na extinta estação ferroviária da cidade, chefiada pelo marido, seu Modesto.
Pessoas ilustres como o vice-presidente José Alencar, Tancredo Neves e o poeta Carlos Drummond de Andrade já atestaram a qualidade do doce de Piranguinho, cuja produção mensal ultrapassa 60 mil unidades, sete vezes mais que a população de 8.220 habitantes. Um terço dessa produção é feita pela Barraca Vermelha, fundada por dona Matilde e hoje administrada pela sobrinha Sônia Regina Guedes Torino, 55.
"Somos os únicos a manter a receita tradicional, à base de amendoim e rapadura", conta a empresária, que emprega 15 pessoas, entre produção e comércio. Hoje, são mais de 11 produtores. Cada barraca tem o nome de uma cor, às margens da BR-459, que liga Pouso Alegre a Itajubá.
Além do tradicional pé de moleque de Piranguinho, o Sul de Minas se destaca ainda pela produção de componentes da indústria de eletroeletrônicos. Outra vocação é o cultivo de morango, no qual domina 96% da produção da região. A capital da fruta é Bom Repouso, a 433 quilômetros de Belo Horizonte.
"Aqui, o morango garante renda para a gente o ano inteiro", conta o produtor Anilton Rodrigues da Silva, vice-presidente da central de negócios Coração do Vale, cooperativa que reúne cerca de 30 pequenos agricultores. A cidade, que antes tinha na batata sua principal fonte de renda, agora se volta para o morango.
De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em 2008 foram mais de 24,8 mil toneladas produzidas. Apenas essa central de negócios movimentou R$ 183 mil. Na roça de Anilton, são cultivados cerca de 45 mil pés da fruta. "Ontem, negociamos a caixa por R$ 7", comemora. Ele conta que a central comercializa o morango junto a uma rede paulista de supermercados que conta com 28 lojas. "Também estamos conversando com o Carrefour", avisa, sem dar detalhes da negociação.
"A central tem ganhado muito mercado. Antes, eles estavam na mão dos atravessadores", ressalta a analista de mercado do Sebrae Algeny Gomes. Agora, a renda dos produtores quase triplicou. Eduardo Henrique de Brito, 19, é responsável por uma lavoura que rende até R$ 2.000 por mês, na alta temporada. "Do jeito que está é bom, mas tenho plano de ter minha própria lavoura", planeja.
Desenvolvimento local. A gerente de indústria e projetos temáticos do Sebrae-MG, Marise Brandão, ressalta o papel dos micro e pequenos empreendedores para o desenvolvimento da economia local. Em Juruaia, capital da lingerie, metade da cidade vive em torno da produção e comercialização das roupas íntimas. "Hoje, a cidade abriga mais de cem empresas", completa Marise ao ressaltar que, enquanto o mundo estava em crise, foram criadas novas empresas na cidade.
Outro destaque no setor de vestuário é Borda da Mata, também no Sul de Minas, integrante do chamado circuito das malhas. Considerado a capital do pijama, o município atrai compradores de várias partes do país. Ao lado da tecelagem, o setor é o que mais emprega na cidade.
Apenas a Lua Cheia, uma das fabricantes, emprega cerca de 60 funcionários. "A maior parte dos empregos é para pessoas da própria cidade", conta a proprietária Clarice Coutinho de Andrade. O setor têxtil e de vestuário de Borda da Mata reúne mais de 80 micro e pequenas empresas, segundo a Classificação Nacional de Atividades Econômicas (Cnae) do IBGE.
Em Inconfidentes, no Sul de Minas, a tradição do crochê é passada de geração a geração. Considerada a capital do crochê, a cidade que integra o circuito das malhas reserva muita história em torno da atividade. "Na zona rural, antes de a criança ir para a escola, ela tinha que deixar uma parte do crochê pronta", diz uma moradora. Juliana Gomes, 25, deixou de receber encomendas do comércio e hoje pratica como hobby. "Aprendi ainda nova, aos 8 anos, com a minha mãe", conta.
A economia chega a 30%, o que significa margem de lucro maior. "Sozinhos, eles não têm condições de competir. No início é difícil porque um vê o outro como concorrente. Mas, com o passar do tempo, eles percebem que têm as mesmas dificuldades e desafios", afirma a analista de mercado do Sebrae, Algeny Gomes.
Um exemplo de sucesso é a "Tece Bem", em Guaranésia, no Sudoeste de Minas, conhecida como a capital dos panos de prato e de chão. Com a união, eles se tornaram mais competitivos. No primeiro ano de funcionamento, em 2008, a rede registrou faturamento de quase R$ 7 milhões a mais do que no ano anterior.
Em Bom Repouso, a Coração do Vale, que reúne cerca de 30 produtores de morango, também colhe os frutos. Atuando há dois anos, a economia na compra de insumos chega a 30%. Segundo o produtor Anilton Rodrigues da Silva, o grupo se livrou de atravessadores e dita o preço pago ao produtor. Foi desenvolvida ainda uma infraestrutura com frigorífico, transporte próprio e centro de distribuição.
Em Borda da Mata, a alta competitividade no setor de pijamas ainda não foi capaz de unir as empresas para ganhar mais mercado. (ZM)
Em Piranguinho, os produtores fazem em julho a Festa do Pé de Moleque, evento que mobiliza todas as cidades do Sul de Minas. O destaque é a distribuição gratuita de 15 metros do doce. (ZM)
















