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POUSO ALEGRE - Exatamente ali, onde aconteceu uma das mais sangrentas batalhas entre Minas e São Paulo durante a Revolução Constitucionalista de 32, no bairro São João, desde a madrugada desta segunda-feira, 8, uma rebelião silenciosa, ordeira e pacífica acontece contra o prefeito de Pouso Alegre, Agnaldo Perugini (PT).

Na segunda-feira, 48 famílias ocuparam um terreno de cerca de 8 mil metros quadrados em frente ao CAIC São João. Em sua grande maioria, são desempregados ou trabalhadores de baixa renda moradores do próprio bairro, sem condições de arcar com aluguel de casa. Organizados, os invasores dizem que esperam, com isso, chamar a atenção da população de Pouso Alegre para as promessas de campanha do prefeito que não foram cumpridas até agora; a principal, para eles: a doação de terrenos, reforma e construção de casas populares.

Nesta terça-feira, outra área foi ocupada por mais 52 famílias; também de forma pacífica e ordeira. De acordo com a maioria, a decepção com o prefeito é tanta que, apesar da Polícia Militar ter retirado na noite anterior os primeiros assentados desta nova área, eles voltaram em número bem maior e tomaram posse das terras da Prefeitura demarcando-as em lotes. Segundo informações dos moradores do local, a área de mais de 100 mil metros quadrados que começou a ser ocupada na terça-feira, estará totalmente loteada até o final de semana pois pessoas de toda a cidade estão indo para lá para demarcar seus lotes.

Sem controle da movimentação e sem credibilidade para negociar com os invasores, o prefeito Agnaldo Perugini - que, ironicamente, foi um dos líderes do Movimento dos Sem Terra no sul de Minas - não teve outra alternativa a não ser confiar na Justiça para expulsar os invasores.

Enquanto isso, sobre o sangue de paulistas e mineiros mortos após a batalha de 32, nasce um novo bairro e uma nova esperança para quem cansou de promessas vãs.

A posição dos sem teto
Os ocupantes das terras da Prefeitura sâo unânimes em dizer: não há uma política habitacional decente em Pouso Alegre. Segundo eles, prefeitos anteriores promoviam doação de lotes para construção de casas. ´Ninguém aqui quer montar favela, casa de papelão ou de madeira. Nós queremos apenas um lote para construir um teto decente´, fala Jorge da Silva Rodrigues, 34 anos, pintor de mão cheia que está desempregado há mais de um ano, ´mas não me falta trabalho, eu pego casas pra pintar, faço pequenos reparos, ofereço meu serviço de porta em porta que eu não tenho medo e nem vergonha de trabalhar´, conta, ´mas a Caixa não aceitou o meu cadastro porque eu não tenho carteira assinada´.

Outros, apesar de estarem empregados e ter o nome ´limpo´, estão há meses na fila da Caixa para a compra de um inóvel do programa ´Minha Casa, Minha Vida´. Segundo eles, a burocracia é tão grande que fica impossível ´dar conta de toda a papelada´.

Todos, sem exceção, culpam o prefeito Agnaldo Perugini pelo descaso para com a situação. ´O prefeito subiu no salto e não atende ninguém´, dizem. ´Ninguém dá informação de nada na Prefeitura. Quando a gente reclama em conjunto´, ressalta Rosemary de Souza, 29 anos, doméstica, separada, dois filhos, ´eles fazem um cadastro, dizem que vão fazer e acontecer e somem´.

Os assentados estão fazendo uma comissão para tentar, novamente, falar com o prefeito. De acordo com essa comissão, nesta terça-feira apareceram pessoas no local oferecendo cesta básica. ´Nós não estamos pedindo cesta básica e nem roupas´, diz Jorge, ´somos trabalhadores, não somos flagelados e nem favelados. Só queremos que todos da cidade compreendam que estamos cobrando do prefeito aquilo que ele prometeu. Ele foi de porta em porta, de casa em casa dizendo que tudo iria mudar se ele ganhasse, que teríamos nossos lotes para construir, que reformaria a casa de quem tinha casa e daria casa para quem não tem casa. Se alguém da cidade quiser nos ajudar, aceitamos, queremos ajuda para ter onde morar com dignidade sem ter que passar pela humilhação que estamos passando´, desabafou.

Os ocupantes das terras denunciam ainda que um conjunto de casas populares foi feito próximo dali, mas apenas pessoas de fora tiveram a oportunidade de ter sua casa própria. 䚪% é de fora´, conta Hermenegildo de Lima, ´as casas foram dadas a pessoas dali da região de Itajubá, de Poço Fundo, de perto de São Paulo, tudo de fora. Daqui de Pouso Alegre mesmo, se tiver uma meia dúzia é muito´.

A posição da Prefeitura
Na segunda-feira, o secretário de Desenvolvimento Social, Leon Camargo, montou um ´escritório´ no pátio da creche local. Inicialmente, o cadastro previa a assinatura dos assentados em documentos se comprometendo a deixar o local para depois fazer o cadastro para uma casa própria. Como os ocupantes não concordaram com esse ítem, Leon Camargo suspendeu a assinatura do documento e providenciou o cadastro de todos.

De acordo com Leon, o terreno ocupado na segunda-feira seria utilizado para a construção de três prédios de apartamentos do programa do governo federal. Ele concordou que o programa municipal de habitação não está atendendo as famílias com suficiente agilidade.

No segundo assentamento, na terça-feira, a mesma explicação foi dada à comissão que está se formando para negociar com a Prefeitura. ´Aqui o prefeito nem passa´, relata uma das assentadas. ´Ele manda secretário pra falar com a gente, prometer, fazer cadastro, levar a gente no bico, mas ele mesmo não vem aqui´.

Leon Camargo disse que a invasão interrompeu o processo da Caixa Econômica que já estaria avaliando o terreno para a construção de apartamentos. Porém, pessoas ligadas ao departamento de Habitação negam que o terreno tenha sido avaliado pela Caixa.

Leon disse que a prefeitura está acompanhando a movimentação e que colocou guardas municipais para evitar problemas. Ele também revelou que os invasores são pessoas de Pouso Alegre, na maioria, filhos de moradores do bairro. O secretário disse ainda que mil casas populares serão construídas em Pouso Alegre através do programa ´Minha Casa, Minha Vida´ mas que o processo com a CEF está em andamento e não há data para o início das obras.